Ecrãs tactéis: a evoluir desde 1965

Imaginar o mundo tecnológico actual sem os touchscreens é como imaginar a cozinha portuguesa sem o azeite. Imaginar um iPhone com teclas é como comer as batatas do Natal sem o sumo da azeitona.

O smartphone da Apple ditou por completo o ponto de viragem no mundo dos telemóveis, apesar de não ter sido o primeiro smartphone de ecrã sensível ao toque: as honras de um telemóvel totalmente touchscreen ficam a cargo do LG Prada. Aos poucos a tecnologia de telas que respondem aos toques humanos de maneira a executar uma acção foi-se espalhando pelo mercado: máquinas fotográficas, caixas de multibanco, consolas, sistemas de GPS, máquinas fotocopiadoras, PDAs, tablets, máquinas de senhas e em dispositivos de maquinaria fabril.

Os que pensam que a tecnologia dos ecrãs tactéis é coisa recente, têm que pensar outra vez. Os dados não são certos, mas E.A. Johnson é o homem a quem normalmente se atribui os créditos por tamanha invenção. O primeiro ecrã sensível ao toque era capacitivo, ou seja, funcionava através da electricidade que o corpo transmite e não sobre pressão – os ecrãs de pressão são conhecidos como resistivos. As origens datam de 1965, ano em que o inventor americano escreveu um artigo a explicar a ideia de ecrã sensível ao toque.

Mais tarde foi Sam Hurst, professor na Universidade do Kentucky quem deu o passo seguinte na linha de evolução. O “Elograph” era um sensor que respondia ao toque e que não apresentava a transparência dos ecrãs touchscreen dos dias de hoje. Em 1973 o “Elograph” recebeu a distinção de ser um dos cem produtos tecnológicos mais importantes do ano, mas até ao investimento da Siemens na patente de Sam Hurst a tecnologia pouco evoluiu.

A partir da década de 1980 o universo táctil começa a ser introduzido no mercado comercial através de produtos tecnológicos. A Hewlett-Packard lançou o HP-150, um computador de casa que trazia a capacidade de resposta aos toques dos utilizadores através de um conjunto de sensores infra-vermelhos. Nos nineties a febre dos dispositivos sensíveis ao toque atingiu o seu máximo com a chegada dos PDA’s ao mercado, agendas pessoais práticas e que levavam a mística das telas mágicas aos bolsos das pessoas.

O touchscreen veio melhorar a forma como as pessoas interagem com os dispositivos, tornando a experiência de utilização mais simples e intuitiva. Os ecrãs tactéis permitem que o tamanho e peso dos dispositivos sejam menores, enquanto a sua portabilidade aumenta de maneira exponencial. Conforme evoluíam os dispositivos, na mesma medida evoluíam os ecrãs.

Rapidamente aparece o século XXI e de forma ainda mais rápida cresce o mercado dos telemóveis completamente controlados pelo toque. Adeus teclas. A grande precisão e tempo de resposta dos ecrãs mais recentes permitiram que os teclados físicos fossem substituídos por teclados virtuais. E quando um simples toque não chega para executar a função, eis que as empresas desenvolvem os ecrãs multi-toque, painéis que chegam a reconhecer mais de dez contactos em simultâneo dentro da mesma tela. O pinch-to-zoom é uma moda que veio para ficar, assim como o duplo toque para ajustar os conteúdos literários ao tamanho do ecrã. Mas tudo ainda muito longe da espectacularidade representada no filme Minority Report.

A Microsoft é a empresa que anda mais próxima da ficção.  Com o projecto Surface e Surface 2 a multinacional criou uma mesa de proporções generosas toda ela sensível ao toque. A aplicação do conceito está totalmente virado para o mercado empresarial e daqui a duas dezenas de anos é possível que a mesa onde janta seja a mesma mesa onde trabalha e se diverte. Os toques, esses, já não precisam de ser só humanos. A interacção com objectos também é possível e abriu um campo de possibilidades vastas e que cada vez se aproveita mais: a realidade aumentada.

E é pela mão da Microsoft que a tecnologia táctil está a evoluir. A empresa responsável pelo sistema operativo Windows Phone está a trabalhar de maneira a reduzir ao máximo o tempo de resposta entre o momento em que o dedo toca no ecrã e desloca-se, e o tempo que a acção demora a ser executada. Nos dias actuais o tempo de resposta médio é de 1 centésimo de segundo, mas se a aposta dos engenheiros da Microsoft Research for viável, então o tempo de resposta baixa para 1 milésimo de segundo. Com um tempo de resposta tão baixo os sistemas operativos e os softwares ganham vida debaixo dos dedos dos utilizadores, quase como que adivinhando o que as pessoas querem fazer.

As novidades na tecnologia touch chegam também do outro lado do mundo. A empresa Karuma, sediada em Singapura, diz ter criado o primeiro tablet do mundo com tela anti-bacteriana. No PlayBase+, o ecrã tem uma protecção activa contra bactérias, germes e micróbios. É a prova de que a indústria está atenta às diferentes dificuldades e falhas que determinados produto podem ter. Os smartphones e os tablets estão constantemente sujeitos a este tipo de contaminações, ainda para mais quando levam com os dedos dos humanos. Como se não bastasse, são dispositivos que facilmente trocam de mão, pela sua capacidade de entretenimento ou apenas pela mais pura das curiosidades.

Segundo o Tecnoblog, a Microsoft registou uma patente, parecida com a ideia do PlayBase+, durante o ano de 2011 na qual o ecrã limpa-se a si próprio e desinfecta-se, através de uma combinação de luzes LED, luzes ultra-violeta e um tipo especial de painel.

Apesar de as exigências parecerem «ridículas», ser apenas um tela sensível ao toque já não chega. O exemplo da Corning, empresa que desenvolveu o Gorilla Glass, é um caso de sucesso que soube aproveitar as fraquezas da moda para tornar as suas soluções num requisito mínimo. Telas sensíveis ao toque são também telas que são sensíveis à queda, que facilmente se partem e deixam quase inutilizado o dispositivo, não só pelos baixos níveis de visão como pela falha na resposta ao toque. Vidraça partida é o maior temor de quem tem um smartphone ou um tablet pois a troca do painel nunca fica em conta.

O Gorilla Glass veio trazer um vidro resistente, à prova de riscos e de embates mais fracos, que salvaguarda todo o ecrã. Os telemóveis topo de gama já não passam sem a devida protecção da Corning que continua a apostar no melhoramento dos seus painéis.

Sensível ao toque, resistente, de alta resolução como o Retina Display ou com tecnologia 3D, a tecnologia touchscreen não se basta a si própria. A dissociação entre um sensor táctil e o ecrã do dispositivo já não é feita, está tudo englobado no mesmo sentido. Carregue para ver, carregue para ouvir, carregue para desligar. Nunca pensou E.A. Johnson que as pontas dos dedos ganhassem tanta importância.

Mas o legado das telas touchscreen pode estar ameaçado. A tecnologia floating touch do Xperia Sola levou a outro patamar o toque em dispositivos, a um nível quase metafórico. No novo telemóvel da Sony não é preciso tocar na tela para navegar, basta aproximar os dedos do ecrã. A navegação tendo por base o movimento parece mesmo ser o passo seguinte na evolução da interacção do Homem com a máquina. Giroscópios, acelerómetros e sistemas Kinect começam a banalizar-se no mundo tecnológico e o touch pode ser arrumado a toque de caixa para um canto.

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